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" SEXTING "

Marcela Munhoz
Do Diário do Grande ABC

 

Um dia, acorda-se como anônimo. No outro, não pode mais sair na rua para não ser reconhecido. Isso aconteceu no início do ano com uma garota de 16 anos. O vídeo que fez para o namorado na webcam - mexendo em suas parte íntimas com uma escova de cabelo e vestindo uniforme da escola - foi parar no celular de colegas e chegou até no de alunos de outros colégios.

Resultado? A vida da menina virou do avesso. Foi hostilizada, ouviu xingamentos e teve de mudar de escola. "Até meus colegas do inglês vieram me perguntar o que tinha acontecido. Fiquei chocada. Ninguém acreditava na história, mas o vídeo era real", conta a garota, colega de escola. "Ela foi ingênua demais, confiou no cara. Para mim, os dois estão errados. A imagem dela vai ficar manchada para sempre."

Quando chegou em casa, a garota contou para a mãe o que tinha acontecido. "As pessoas têm de ter cuidado para não se abrir totalmente para o mundo. Há um limite de privacidade. Hoje não adianta mais proteger o filho dentro de casa, o mundo entra onde ele estiver por meio da tecnologia", diz a mãe, 46, que aproveitou para explicar à filha que não há problema em descobrir a sexualidade, mas é preciso tomar cuidado.

 

- O que aconteceu com a menina de 16 anos é considerado sexting, fenônemo que vem rolando nos Estados Unidos e Europa há alguns anos e começa a crescer também no Brasil. Sexting é a união das palavras em inglês sex (sexo) e texting (envio de mensagens) e serve para textos e fotos sensuais (nus ou seminus) enviados por celular, e-mail, webcam, geralmente para paqueras, ficantes, namorados (as), maridos (esposas).

Pesquisa realizada em fevereiro pela ONG Safernet com 2.159 crianças e adolescentes entre 5 e 18 anos revela que 11% já fizeram sexting. Ou seja, publicaram mensagens íntimas ou fotos em poses sensuais.

"Eles querem aproveitar o momento. Não pensam que a foto pode ser vista por futuros chefes, esposas, maridos e filhos. Outro perigo ainda pior é a pornografia infanto-juvenil. Será que não sabem que as fotos vão parar em sites pornográficos?", questiona Rodrigo Nejm, diretor da ONG Safernet.

Para o psiquiatra Aderbal Vieira Junior, a tecnologia facilitou tudo. "Antigamente, era mais dificil um estrago tão grande. As pessoas tinham de se expor mais. Era preciso mandar relevar o filme, por exemplo. Hoje é tudo mais fácil, as imagens multiplicam-se."

Por que expor a intimidade?
"Quem se fotografa nu está lutando para promover sua popularidade", afirma a psicóloga norte-americana Susan Lipkins, que conduziu estudo com 300 jovens para entender o sexting. Ela comprovou que crianças de 9 anos já estão mandando mensagens sensuais. Na opinião de Rodrigo Nejm, da Safernet, todos querem virar celebridade. "Há superexposição do corpo e da intimidade de maneira geral," referindo-se às fotos postadas no Orkut e Facebook.

Preocupada com as histórias que a filha adolescente conta - como a de que colegas da escola fizeram striptease para os meninos - uma mãe, 40, de São Caetano, já discutiu o assunto no blog com outras mães. Ela acredita que os casos de sexting se multiplicaram porque nunca esteve tão na moda fuxicar a vida alheia e expor a própria intimidade. "Estamos na era BBB." Na sua opinião, a melhor forma de ficar de olho nos filhos é fazer parte da realidade deles. "É preciso aprender a utilizar a tecnologia.

Outro lado - Além da fama, o sexting serve como diversão, para apimentar a paquera e o namoro e como autoafirmação.

Noção das conseqüências
Para se exibir ou agradar alguém? Não importa o motivo. O fato é que casos de sexting não terminam bem. As imagens acabam caindo na rede por vingança dos exs, por quem recebeu ou mesmo por acidente de percurso, como roubo do aparelho ou invasão de hacker. É inocência de quem manda ou falta de noção de privacidade?

"Adultos também mandam fotos e textos sensuais. Teoricamente, eles deveriam ter mais noção das consequências", aponta o psquiatra Aderbal Vieira Junior. As consequências para quem se envolve em casos de superexposição são complicadíssimas. Para começar, a vítima nunca vai conseguir tirar as imagens da internet. Além disso, pode sofrer bullying; por isso, tem de pensar antes e não fazer.

"As pessoas envolvidas podem até esquecer do que aconteceu, mas quem está na imagem não", afirma um adolescente, 17 anos, que confessou postar imagens e vídeos sem autorização dos amigos e ver tudo o que recebe: "Todo mundo tem curiosidade. Não adianta falar que não."

Punição é rara
Quatro Estados norte-americanos consideram o sexting crime de pornografia ou exploração sexual de menores. No ano passado, 17 adolescentes foram acusados pelo crime de pornografia infantil, embora as imagens divulgadas fossem deles mesmos. Mas a Instância de Apelações de Justiça da Pensilvânia decidiu que adolescentes que enviam imagens íntimas do próprio corpo não podem ser enquadrados nesse crime e têm respaldo da lei de liberdade de expressão.

No Brasil, as vítimas, em geral, não levam a acusação adiante por medo de maior exposição. No entanto, processos acontecem. No Rio de Janeiro, por exemplo, dois jovens foram acusados de postar no Orkut fotos de uma adolescente praticando relação sexual mas, depois, descobriu-se que a própria garota postou. "Acho que quem se expõe não precisa de punição da Justiça como acontece nos Estados Unidos. O castigo já é a humilhação. Mas quem espalhou deve ser julgado e condenado", afirma uma adolescente, 14.

A Delegacia de Crimes Eletrônicos recebe denúncias pelo tel.: 2221-7030, ou acesse o site da ONG de direitos humanos na internet www.safernet.org.br

Recado para os pais
 

* Fique de olho no que os filhos fazem na net e o que mandam nos celulares, mas procure não constrangê-los, porque assim perderão a confiança em você.

* Converse com eles sobre comportamento de risco e como se proteger.

* Aprenda a navegar e usar tecnologia para se aproximar do mundo deles.

 

Saiba se proteger e não caia nessa
 

A adolescência é uma fase de descobertas da sexualidade. Até aí, nada de mau. Mas tem de saber que algumas decisões impensadas e ingênuas de agora podem trazer consequências para sempre. A internet e outras tecnologias, como o bluetooth, ajudam a eternizar o erro. Por isso, cuidado para não cair nas armadilhas e preserve-se!

Confira as dicas da Cartilha de Segurança disponível no www.safernet.org.br

* Jamais se deixe levar por pressões - de amigos ou namorados (as) - para produzir ou publicar imagens sensuais, por mais apaixonada (o) que esteja.

* Não confie em ninguém. Suas fotos podem virar instrumento de vingança no futuro.

* Tudo o que se faz online tem consequências fora da internet e para sempre. Imagine seus pais, professores, futuros namorados (as), chefes e até maníacos sexuais observando-a (o) em poses sensuais.

* Uma vez que as imagens ou textos vão parar no ciberespaço, sempre vão ficar lá. É impossível eliminar todas as imagens do mundo virtual. Tornam-se eternas.

* Pode parecer brincadeira inocente, mas mensagem sensual ou foto coloca sua privacidade em risco. Elas podem dizer sobre sua vida para pessoas que você nem gostaria de conhecer.

* Quando tiver dúvidas em relação ao comportamento sexual, converse com seus pais e amigos(as) de confiança em vez de se expor pela internet. Ainda pode procurar o médico ou o professor com que mais se identifica.

* Não há nada de errado em falar e discutir sexualidade. O erro é não se proteger nem se informar sobre como manter relações saudáveis.

* Proteja-se e não permita agressões nem pedofilia.

 

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Sexting: não caia nessa